O Lovable encurtou muito o tempo entre decidir e ver funcionando no nosso próprio site. O que ele não fez foi garantir que o site fosse lido por buscadores e crawlers de IA, que o analytics registrasse visitas de verdade e que as versões em inglês e espanhol mostrassem conteúdo em inglês e espanhol. Isso foi trabalho nosso, e parte dele só apareceu meses depois do lançamento.
Este é o relato de como usamos a ferramenta, com os problemas incluídos. Serve para quem está avaliando construtores de aplicações com IA para o site da empresa, uma landing page ou um produto interno.
Por que usamos o Lovable
Construímos sites, plataformas e sistemas para clientes. Quando chegou a hora de reconstruir o nosso, com identidade visual nova e conteúdo que refletisse o que a Cortex IQ faz, o projeto tinha o destino clássico de projeto interno: sempre ficava para a semana seguinte.
O Lovable é um construtor de aplicações web em que você descreve o que quer em linguagem natural e um agente escreve e edita o código. A ferramenta se chamava GPT Engineer antes de mudar de nome (Lovable), e é por isso que, no histórico do nosso repositório, os commits gerados por ela aparecem assinados por "gpt-engineer-app[bot]".
O código resultante é um projeto React comum: Vite, TypeScript, Tailwind CSS e componentes shadcn/ui, com banco de dados e funções de backend via Supabase, oferecido dentro da plataforma como Lovable Cloud. Não é uma caixa-preta. O projeto sincroniza com o GitHub nos dois sentidos (Lovable Docs), então dá para abrir o código em qualquer editor e trabalhar nele fora da ferramenta.
O que construímos
O escopo não era de landing page: páginas institucionais, páginas de serviço, páginas de oferta montadas a partir de um único template alimentado por dados, cases, blog, formulários que gravam no banco e disparam e-mail, banner de cookies que só libera o Google Analytics 4 depois do consentimento e três idiomas (português, inglês e espanhol).
A abordagem que funcionou foi tratar o Lovable como um desenvolvedor rápido que precisa de briefing preciso. Cada pedido dizia a stack, os tokens de cor exatos, a hierarquia de componentes, o padrão de formulários e as regras de internacionalização. Quanto mais contexto explícito, menos retrabalho.
Onde precisamos intervir no lançamento
Três pontos exigiram alguém com a mão no código ou reescrevendo o pedido:
- Identidade visual de uma oferta. Uma das páginas de oferta saiu com um tema visual diferente do resto do site. Corrigimos com um prompt de override detalhado. Lição: se a identidade é específica, ela precisa estar escrita no pedido, não implícita.
- Arquivos para buscadores. Gerar o sitemap a partir dos arquivos de conteúdo exigiu código escrito à mão. Tarefas que dependem do processo de build ainda ficam melhores com um desenvolvedor.
- Conflitos de dependência. Versões incompatíveis entre bibliotecas quebraram o build mais de uma vez. É o ritmo do ecossistema JavaScript, não um defeito da ferramenta, mas alguém precisa perceber antes de publicar.
O que apareceu depois do lançamento
Esta seção foi acrescentada em setembro de 2026, com o site alguns meses no ar. É a parte mais útil do relato, porque são problemas que não aparecem no preview.
O conteúdo estava em português para todo mundo. As páginas de ofertas, de cases e da RÜNARA mostravam o texto em português mesmo quando a URL era /en-us ou /es-es. O menu trocava de idioma, o conteúdo principal não. Nada quebrava visualmente, por isso passou despercebido até uma revisão arquivo por arquivo.
O analytics não registrava visitas. O código carregava o Google Analytics por injeção dinâmica de script depois do consentimento. A camada de dados mostrava os eventos corretos, mas nenhuma requisição chegava de fato ao Google. Resolvemos trocando para a tag estática no HTML, com a configuração ainda condicionada ao consentimento, o mesmo padrão que já funcionava em outros dois sites nossos hospedados no Lovable. Também descobrimos que a navegação entre páginas, por ser uma aplicação de página única, não gerava page_view, e passamos a registrar cada troca de rota.
Crawlers de IA viam uma página vazia. Esse foi o mais sério. O site era renderizado inteiramente no navegador: as 84 URLs do sitemap entregavam o mesmo HTML vazio, e o conteúdo só aparecia depois de o JavaScript rodar. O Google renderiza JavaScript numa etapa posterior ao rastreamento (Google Search Central), mas uma análise da Vercel mostrou que nenhum dos grandes crawlers de IA, incluindo GPTBot e ClaudeBot, executa JavaScript (Vercel, 2024). Para quem quer ser citado por ChatGPT, Claude ou Perplexity, isso equivale a não ter site. A correção foi uma etapa de pré-renderização no build, que gera HTML estático com conteúdo, título e dados estruturados para cada rota.
O código local ficou 23 commits atrás. Como o Lovable e o GitHub sincronizam pela branch principal, edições feitas direto no editor do Lovable e edições feitas localmente divergiram. A reconciliação exigiu resolver conflitos arquivo por arquivo. Hoje a regra é simples: cada mudança nasce num lugar só, e quem vai começar sincroniza antes.
Nenhum desses problemas é exclusivo do Lovable. São problemas comuns de qualquer aplicação de página única feita com pressa. A diferença é que a velocidade da ferramenta faz você chegar a eles mais rápido e, às vezes, publicar antes de perceber.
O que faríamos diferente desde o primeiro dia
Com o que sabemos hoje, três decisões teriam vindo antes da primeira tela.
- Pré-renderização ou renderização no servidor desde o início. Corrigir depois exigiu mexer no build, no roteamento e em partes do código que acessavam recursos do navegador no carregamento. Seria mais barato ter nascido assim.
- Uma regra escrita sobre onde as mudanças acontecem. A divergência de 23 commits exigiu uma reconciliação arquivo por arquivo que um combinado de duas linhas teria evitado.
- Um teste automático simples no build que abre cada rota em cada idioma e confere se o conteúdo principal está no idioma certo. Os bugs de idioma teriam sido pegos no primeiro dia, e não meses depois.
Nenhuma dessas decisões depende da ferramenta escolhida. Todas dependem de alguém fazer as perguntas certas antes de pedir a primeira tela.
Checklist antes de publicar um site feito com IA
- Abra o código-fonte da página (não o inspetor do navegador) e confira se o texto principal está no HTML. Se não estiver, crawlers de IA não vão ler.
- Troque o idioma na URL e leia o conteúdo, não só o menu.
- Aceite os cookies e confira no relatório em tempo real do GA4 se a visita aparece. Depois recuse e confirme que nada é enviado.
- Navegue entre três páginas e veja se cada uma gera uma visualização.
- Cole o link de cada página importante no LinkedIn ou no WhatsApp e confira título, descrição e imagem.
- Valide o sitemap: toda URL listada deve existir e ter conteúdo no idioma declarado.
- Decida onde as mudanças acontecem, no editor do Lovable ou no repositório, e deixe isso escrito.
Para quem vale a pena
Vale para quem sabe exatamente o que quer construir, tem alguém capaz de ler o código gerado e tem um design system minimamente definido para servir de âncora. Sem clareza de escopo, qualquer ferramenta produz o resultado errado mais rápido. Sem alguém técnico revisando, os problemas acima só aparecem quando o tráfego não vem.
A divisão que ficou para nós é a mesma que defendemos com clientes: a ferramenta gera, as pessoas decidem, verificam e respondem pelo que vai ao ar. Se estiver avaliando esse caminho para o site ou um produto da sua empresa, veja os projetos que já entregamos e como trabalhamos com apps e produtos digitais.